UM BLOG APOIADO PELO INSTITUTO FRANCISCO SÁ CARNEIRO

02
Set 09

Ouvi ontem o primeiro-ministro dizer, contente, que o facto de a “América” (a “América”, repetiu) estar a discutir o seu sistema de saúde era uma “vitória civilizacional” em que nós e o nosso SNS estaríamos na vanguarda. No entanto, o primeiro-ministro esqueceu-se de informar que, a partir do instante em que Obama ameaçou aproximar bastante mais o sistema local de um sistema do tipo do nosso, começou a cair a pique na apreciação da opinião pública.

Esta reacção mostra uma coisa: o descontentamento com o seu sistema de saúde não implicava, para os americanos, copiar ou sequer aproximá-lo dos sistemas europeus. Há muitos mitos sobre o presumível horror do sistema de saúde americano. O que estamos a ver é que, havendo motivos de descontentamento (como em todo o lado), a generalidade da população aprecia o sistema. Ou pelo menos não o detesta o suficiente para adoptar o “avanço civilizacional” que nós daqui propomos. Ao contrário do que diz o primeiro-ministro, seria uma “derrota civilizacional” se a “América” adoptasse um sistema do tipo europeu e, a partir daí, passasse a ser impossível discutir o nosso. De facto, todos nós que temos consciência da necessidade de reformar o nosso sistema perderíamos se de repente aparecesse o argumento de autoridade: “olhem para a América”.

O sistema português vive de uma grande mentira: a de que é gratuito. Começa por não o ser, já que é pago com os impostos sobre o nosso rendimento. Mas sobretudo não é porque cerca de 25% da população está coberta por outros sistemas, para os quais também paga. Quantas pessoas não preferem a contratação de seguros a ter de passar pela experiência das listas de espera ou pelo ambiente horrível de alguns hospitais públicos? Acresce que 60% das consultas de especialidade são feitas fora do sistema público. Estes pagamentos, aliás, em boa medida ajudam a viabilizar o dito sistema público, pois o aliviam de muitos utilizadores. Só que isto corresponde a pagar outra vez aquilo que já se pagou nos impostos. E não impede o crescimento descontrolado das despesas do SNS. Ninguém quer acabar com o acesso universal à saúde. Mas que muita coisa precisa de mudar, precisa.

publicado por Luciano Amaral às 09:47

comentário:
Até porque a minha actividade profissional está intimamente ligada à saúde, posso afirmar que há áreas onde o SNS pura e simplesmente não funciona ou funciona mal. Dois exemplos flagrantes são os serviços de estomatologia e de oftalmologia. No primeiro não existem (ou querem fazer crer que não existem) dentistas para toda a população, deixando a saúde oral dos Portugueses em estado miserável. No segundo, que me diz mais respeito, os utentes ficam meses/anos à espera de uma consulta para fazer uma simples refracção, sendo muitas vezes "obrigadas" a recorrer a serviços de qualidade duvidosa. Aí, penso que deveríamos convergir com a Europa inserindo os optometristas no SNS para fazer refracções e detectar casos patológicos, deixando todo o tempo disponível para os oftalmologistas desenvolverem o trabalho para o qual foram formados que é o de tratar essas mesmas patologias. A acrescer a isso parece-me urgente regulamentar, também, o sector da óptica impedindo dessa forma que muitos Portugueses sofram as incorrecções cometidas por pseudo-especialistas que muitas vezes encontram. Não consigo compreender como é que o Estado cria cursos superiores na área da saúde visual (caso do curso de Física Aplicada (Ramo Óptica)/ Optometria e Ciências da Visão) e não lhes dá o devido enquadramento legal e não retira desses profissionais formados e devidamente qualificados o devido proveito do investimento feito. Talvez assim as listas de espera na área da oftalmologia não fossem o que são...talvez...
Miguel Moreira da Costa a 3 de Setembro de 2009 às 10:01

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